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ENTREVISTA

Marco Hiroshi Naka

Professor de Mecânica do Campus Campo Grande e atual pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação
por Juliana Aragão publicado: 13/10/2016 11h00 última modificação: 17/11/2016 12h19

Filho de imigrantes japoneses que fizeram a vida como comerciantes em Campo Grande, Marco Hiroshi Naka, 39, é o que podemos chamar de um pesquisador por natureza. Em menos de dez anos fez graduação em Ilha Solteira (SP), mestrado no Rio de Janeiro, doutorado no Japão e pós-doutorado na Suíça. Uma vida acadêmica meteórica e, acredite, nada planejada!

Depois de uma temporada fora do país, Naka queria voltar para Campo Grande, estar perto dos pais. Ficou “de olho” no concurso do IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul), uma instituição que nem conhecia direito. Ingressou em 2010 como professor de Mecânica e acabou identificando-se com a educação profissional e tecnológica.

À frente da Pró-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação há oito meses, Naka fala sobre o número recorde de projetos de pesquisa selecionados para as feiras de ciência e tecnologia do IFMS deste ano, a realização da Semana de Ciência e Tecnologia nos dez campi e os próximos desafios do setor.

Se você ficou interessado na trajetória acadêmica do “professor Naka”, confira o bate-papo a seguir. É um estímulo à produção científica!

Pró-reitor ainda consegue dar aula?

Consegue. É difícil, mas consegue. É até bom dar aula porque a gente se sente revigorado. Esse contato com os estudantes e com os demais professores no campus, isso ajuda a ter uma maior proximidade com a realidade deles e acho que isso é fundamental, até para pensarmos as nossas políticas, assim podemos ver como estão sendo desenvolvidas as ações no campus.

O seu interesse pela tecnologia surgiu quando?

Quando eu era criança gostava muito de tecnologia. Eu tinha facilidade, na verdade. Não era um interesse: eu quero fazer isso, eu quero trabalhar com isso. Eu tinha facilidade de mexer com as coisas, de entender como funciona e tudo mais.

O senhor é filho de professores e pesquisadores, ou não?

Não, não, não. Meus pais eram comerciantes. A gente tinha um bar na Avenida Calógeras, inclusive quando a gente era criança os ajudava. Fiz muita coxinha já... (risos)

Filho de imigrantes japoneses?

Filho de imigrantes japoneses...

E eles vieram diretamente para o Brasil, como foi essa história?

Eles vieram pela Bolívia e depois aqui para Campo Grande. Trabalharam em lavouras e tudo mais, e estabeleceram comércio aqui.

A escolha pela Engenharia Mecânica teve alguma influência ou foi simplesmente a descoberta de uma habilidade?

Pensei em Engenharia Mecânica porque eu gostava muito de carro, embora tenha descoberto que o curso não tinha nada a ver com carro, né...

Não só com carros...

Não só com carros, mas aos poucos eu fui gostando daquilo que fui aprendendo. Não diria que foi uma decisão muito bem pensada, foi mais ou menos aproximada (risos).

Em 1999, o senhor terminou a graduação; em 2001, se tornou mestre; em 2005, terminou o doutorado; e de 2006 a 2008 fez pós-doutorado. Houve um planejamento para essa trajetória acadêmica meteórica ou foi acontecendo?

Foi acontecendo. As oportunidades se abrem quando você está perto delas. Quando terminei a graduação, recebi o convite de um professor para fazer o mestrado no Rio de Janeiro. Eu não queria fazer mestrado e estava bem convicto disso. Aí, aconteceu uma série de circunstâncias... Ele era evangélico como eu, e falou que não era para eu tomar a decisão desse jeito, era para consultar Deus. Meio que ignorei e fui para um acampamento da igreja. No acampamento, encontrei um pessoal do Rio de Janeiro pedindo ajuda para a igreja do Rio porque tinha pouca gente. Falaram justamente: se você tem a oportunidade de fazer o mestrado no Rio, vá!  E eles não sabiam dessa minha proposta. Aí, resolvi ir. Foi bom, foi muito positiva a minha ida para o Rio.

Lá, eu já estava namorando e minha namorada, na época, foi para o Japão e eu falei: vou tentar fazer o doutorado no Japão, ficar perto dela. E aí consegui também. Então, foram muitas escolhas pessoais que foram me conduzindo. O pós-doutorado foi mais incrível ainda. Eu tinha tentado um pós-doutorado no Japão e a negação saiu no dia que eu defendi o doutorado e fui aprovado. Foi um misto de tristeza e alegria.

Por outro lado, no dia seguinte, quando fui ao laboratório de novo, meu orientador falou assim: recebi um e-mail da Suíça e estão precisando de uma pessoa com um perfil parecido com o seu. Você não quer tentar? Falei: ah, vou! Mandei o e-mail, e eles retornaram. Perguntaram se podiam ligar, falei: pode. Tocou o telefone, fizeram uma entrevista e me convidaram para ir até lá. Graças a Deus eu passei e fiquei na Suíça por dois anos e pouquinho.

Em relação a essa experiência tanto do doutorado no Japão quanto do pós-doutorado na Suíça, é importante para um pesquisador conhecer a realidade de outros países e voltar para o Brasil depois?

É importante para a gente entender a essência da pesquisa. O pessoal lá de fora é muito pragmático, é voltado a resultados. O único cuidado é de não se frustrar ao voltar para o Brasil. Tem muita coisa que eu vi por lá, que ainda não aconteceu, outras que só estão acontecendo agora. Às vezes pode ser frustrante, mas precisamos entender que esses países passaram por um processo. É uma mudança de cultura e aos poucos estamos evoluindo.

O IFMS foi sua primeira experiência com a educação profissional e tecnológica. Como tem sido essa experiência na sua vida?

Tem sido muito frutificante e uma surpresa, porque a cada dia que passa a gente vai aprendendo coisas novas. Eu não imaginava que era desse jeito, sinceramente. Antes de voltar ao Brasil, eu já estava de olho no IFMS e, em 2010, passei no concurso.

Sinceramente, meu primeiro contato – na posse – não foi muito positivo. Falei: meu Deus, o que é isso? Acho que não é isso que eu quero. Mas, lá no fundo alguma coisa me falava: vai! Fui e estou satisfeito por não ter recuado naquela época. Foi a decisão mais acertada e eu tô curtindo muito aqui. Creio que o potencial é muito grande e estamos construindo algo muito positivo para o Estado de Mato Grosso do Sul.

Professor, seu currículo Lattes é bastante extenso. Todas as suas pesquisas seguem a linha da Biotecnologia ou não necessariamente?

Majoritariamente, elas seguem a linha da Biotecnologia. Mas, você pode perceber que algumas pesquisas não têm nada a ver com essa área. Se você for ver, a maioria das minhas pesquisas não tem relação com meu mestrado, doutorado nem com o pós-doutorado. São oportunidades que vão surgindo, editais que surgem, parcerias, empresas que entram em contato. A gente tem que coordenar equipes e é muito gratificante trabalhar com estudantes e construir uma coisa nova. É um desafio!

Falando em currículo, recentemente a Propi – Pró- Reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação – encabeçou uma campanha para atualização do Lattes dos servidores e estudantes. Para quem é pesquisador, qual a importância de manter os dados atualizados na plataforma?

Quando você vê um Lattes e a atualização é recente, percebe-se que a pessoa é comprometida. Ela tem uma preocupação e a disciplina de ficar monitorando essa parte do Lattes.Outro ponto é que tem muito edital que exige o Currículo Lattes atualizado. Além de ter gente monitorando-o também. Eu tive uma experiência de uma empresa que entrou em contato comigo baseado no meu Lattes. Se não tivesse atualizado, já ia ser um problema. Por isso, é tão importante.

Neste ano, as feiras de ciência e tecnologia do IFMS registraram um número recorde de projetos de pesquisa selecionados. Foram 658 trabalhos selecionados nos 10 campi. O que esse número reflete?

Esse número reflete toda uma história, desde a primeira feira que aconteceu em Corumbá, a Fecipan, até a ação sistêmica se espalhando pelos demais campi. É um trabalho da pró-reitoria, dos diretores e coordenadores anteriores que foi se consolidando com o tempo. Isso vai gerando uma memória na localidade, na cidade e na área de abrangência. As pessoas vão conhecendo as feiras e vai se criando um interesse maior, até mesmo dos professores das redes estadual e municipais. Isso reflete a consolidação de todo um trabalho anterior ao nosso.

Quais os maiores benefícios que a iniciação científica traz para o estudante/pesquisador e para o professor/orientador?

Os benefícios são inúmeros, digo por experiência própria. Desde o segundo semestre da minha faculdade, em 1995, eu já estava envolvido com iniciação científica e de lá não parei mais, seja como orientador ou orientado. Ajuda você a entender melhor o que é metodologia científica, pesquisa, redação de artigos. Até para escrever o trabalho de conclusão de curso, facilita muito.

Pela primeira vez, o IFMS vai realizar a Semana de Ciência e Tecnologia nos 10 campi simultaneamente. Quais as expectativas para este evento, que hoje é um dos mais importantes no calendário institucional?

A expectativa é muito positiva porque houve o envolvimento de todas as pró-reitorias, da Pró-Reitoria de Extensão, de Ensino e teve uma Comissão Central que trabalhou com bastante antecedência. Nós conseguimos apoio da Sectei [Secretaria de Estado de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação], houve o incentivo para a participação da rede estadual de ensino neste evento, então creio que haverá o envolvimento da comunidade externa. Essa Semana tem sido ano a ano mais conhecida, tem feito parte da memória da localidade.

O que o senhor destacaria como desafios da Propi?

O grande desafio da Propi, para agora e para os próximos anos, é a consolidação do marco regulatório, ou seja, regular todas as ações dentro da pró-reitoria na área de pesquisa, inovação, empreendedorismo e pós-graduação. Além de tentar aperfeiçoar os fluxos de processos da pró-reitoria, que é o grande desafio hoje.

O senhor tem uma rotina bem agitada, mas nunca parece estar estressado, aparenta sempre estar de bom humor... Qual é o seu segredo?

O meu segredo é confiar em Deus. Tem um versículo da Bíblia que diz assim: confia no senhor de todo o teu coração e não te estribes do teu próprio entendimento, ou seja, não te apoies no teu próprio entendimento. Reconhece em todos os seus caminhos e Ele endireitará suas veredas. Ou seja, eu não posso me apoiar naquilo que eu sei. Tenho que confiar em Deus porque, na verdade, se eu me apoiar no meu entendimento, vou me orgulhar e o orgulho precede a ruína, então a coisa não vai. E outro ponto é que se eu reconhecer Ele em todos os meus caminhos, seja profissional, familiar ou onde quer que eu esteja, Ele vai dar um jeito de endireitar as minhas veredas, por mais torto que eu esteja caminhando. Essa confiança em Deus, essa fé é o que me apoia, me sustenta. Sem isso eu não conseguiria fazer nada.

*Atualização: em uma versão anterior do texto, constava como Mato Grosso do Sul o local em que Naka cursou a graduação.