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Entrevista

Maria Neusa de Lima Pereira

Durante um ano e sete meses, professora natural do Piauí ocupou o cargo de reitora do IFMS
publicado: 03/12/2015 12h25 última modificação: 03/03/2016 09h09
Ascom/IFMS

Natural do Piauí, Maria Neusa de Lima Pereira é uma apaixonada pela educação - e por educar - desde sempre. Apesar das dificuldades que enfrentou na infância, e da necessidade de contribuir com a renda familiar desde criança, nunca desistiu do seu maior sonho: estudar.

Após uma trajetória no serviço público de quase 40 anos, Maria Neusa veio ao IFMS para assumir o cargo de reitora pro tempore em maio de 2014. Um ano e sete meses de trabalho depois, ela diz ter cumprido a missão de transmitir o cargo ao primeiro reitor eleito da história da instituição, Luiz Simão Staszczak.

Na entrevista abaixo, você vai conhecer a história desta mulher, mãe, avó, professora e gestora que não teme desafios e pretende se aposentar, sem deixar de trabalhar. Maria Neusa faz um balanço de sua gestão à frente do IFMS, conta suas expectativas para o futuro e revela o que vai fazer quando deixar Mato Grosso do Sul.

Ela também compartilha experiências únicas, como quando quase se tornou freira só para tentar estudar, e como uma certidão de nascimento errada possibilitou que ela casasse e trabalhasse mais cedo. Confira!

Vamos começar falando um pouco da sua infância. Onde a senhora nasceu, onde foi criada?

Eu nasci em Teresina, capital do Piauí, em 1959. Quando tinha meses de idade, meu pai arrumou um trabalho em Água Branca, município próximo de Teresina. Lá passei toda a minha infância. Tenho lembranças boas dessa época, ainda era aquele tempo em que os nordestinos ficavam nas calçadas, os adultos conversando e as crianças brincando de roda. Não tínhamos condições nem de comprar bonecas de plástico, então meu sonho era ter uma. Minha mãe fazia bonequinhas de pano, eu brincava dando aula para elas.

Éramos uma família muito carente. Com nove anos de idade aprendi a fazer crochê e fazia saias para meu pai vender! Nesta época, eu recebi meu "primeiro salário", que foi o dinheiro das vendas. Também foi a última vez que meus pais compraram uma roupa pra mim. Eu me sustento com meu trabalho desde então. Não que eu não trabalhasse antes. Com sete anos, chegava da aula e tinha que levar comida pro pessoal na roça. Eu me escondia nas moitas porque não gostava do sol. Costumava dizer "vou estudar porque eu não gosto dessa vida!".

Como foi a trajetória de estudar, mesmo numa realidade tão difícil?

Sempre gostei de estudar. Quando estava no jardim de infância, era muito tímida, então ficava na sala de aula estudando até durante o intervalo, enquanto as outras crianças brincavam. Em três meses, quando tinha seis anos, já sabia ler e escrever. No ano seguinte, fui fazer o primeiro ano com uma professora particular, porque não consegui vaga numa escola pública. Ela chamava Dona Enedita, dava aula numa sala da casa dela. Era a década de 1960, época da palmatória. Quando você errava questões, ou se não memorizasse a tabuada, você levava "bolo". Fui dos sete aos dez anos nesse processo.

Em 1969, terminei o primário. Comecei a me preparar para o exame de admissão, que os estudantes que não estudaram em escola pública faziam para validar o primário. Minha mãe tinha uma tia que morava no Maranhão e decidiu se mudar para uma cidade do interior de lá, chamada Vitorino Freire. Eu tinha dez anos e falei que não iria porque não queria perder o exame de admissão. Apesar de vários tios quererem ficar comigo, decidi morar com minha professora, pra estudar. Fiquei com ela por três meses. E tirei o primeiro lugar no exame!

Continuou os estudos no Maranhão?

Sim. Mas não consegui vaga em escola pública para fazer o primeiro ano ginasial, então fui estudar numa escola de freiras, caríssima! Eu queria estudar de qualquer jeito! Na época, minha mãe começou a pegar sobras de confecção e a fazer roupinhas para crianças, eu saía vendendo. Com o dinheiro, conseguíamos comprar o básico pra gente comer e pagar a escola. Mas chegou num ponto em que não tínhamos mais como pagar.

Quando fui avisar a diretora, vi uma senhora varrendo o chão da escola e me deu um estalo. Eu falei "irmã, você paga para aquela senhora que está limpando ali?" Ela disse "Claro, minha filha, ninguém trabalha de graça!". Então eu falei "me contrate, eu varro essa escola todinha, eu limpo, e só quero que a senhora me libere pra estudar". Se alguém sentiu pena de mim algum dia na vida, foi aquela irmã. Passei a limpar a escola três vezes por semana. Ela me levou pra limpar o convento que tinha lá também. Pra mim foi uma novidade muito grande, a minha vida era muito difícil, mal tinha o que comer, e lá no convento era aquela fartura... Depois de um mês, decidi ser freira! Fui morar no convento. Estava empolgada em ser freira, porque aquilo pra mim foi uma glória, eu estudar sem pagar... Eu tinha me encontrado com Deus e ia ser freira!

E como isso mudou?

Um tio de Roraima nos visitou e disse que lá em Boa Vista não tinha escola particular, só pública. Meu olho brilhou! Como não tínhamos dinheiro suficiente para a família toda se mudar, e como meu irmão era muito apegado à minha mãe e não quis ir sem ela, eu decidi ir com meu pai. Viajamos num pau de arara de Vitorino Freire para Belém do Pará. De lá, fomos de navio até Manaus. Chegamos em Manaus e não tinha barco pra irmos até Roraima. Eram 15 dias de barco pra chegar! Então conseguimos ir de avião até lá.

Moramos na casa dos meus tios, eu forrava uma toalha no chão pra dormir, até meu pai conseguir comprar um colchão. Na época, tentei trabalhar em lojas, mas não tinha idade e nem tamanho. Tinha 11 anos e era baixinha. Resultado: fui trabalhar de empregada doméstica na casa de uma vizinha. Eu estudava à tarde e de manhã cuidava dos quatro filhos dela, da casa e fazia comida. Depois de seis meses, juntamos todo o dinheiro que ganhávamos pra comprar passagem de avião pra minha mãe e meu irmão. Foi a minha felicidade ver a minha mãe de volta!

E a escola?

Era longe de casa, eu ia a pé. Meu sonho era comprar uma bicicleta. Para conseguir, pedi uma máquina de bordar para o meu pai e aprendi sozinha a bordar. Vendia as peças e assim consegui comprar minha primeira bicicleta. Na época, a firma em que meu pai trabalhava atrasou o pagamento, então sustentei a família durante seis meses.

Quando fui fazer o segundo grau, só tinha a noite. O meu pai é nordestino, daqueles que não deixavam a filha estudar à noite, nem usar calça comprida, só vestido e saia... Sofri muito porque eu não queria parar de estudar, meu sonho já era ser professora.

Foi quando conheci um rapaz que veio do Maranhão, amigo da minha mãe. Ele queria namorar e casar comigo, mas eu tinha uma condição: só casava se pudesse estudar. Casamos em dezembro de 1974. Eu tinha 15 anos.

Pôde casar aos 15 anos?

Uma coisa me ajudou nisso. Quando meu pai foi tirar minha certidão de nascimento, viajou até Teresina com um papel anotada minha data de nascimento e meu nome, mas perdeu o papel no caminho. Meu nome, na verdade, é Marineusa, eu não fui batizada como Maria Neusa. Quando ele chegou no cartório sem o papel, falou meu nome, mas o pessoal não entendeu direito e então ficou Maria Neusa. Ele também não lembrava da data do meu nascimento. Eu nasci no dia 23 de maio de 1959, mas fui registrada com a data de 11 de julho de 1958, um ano mais velha. Isso me serviu pra eu poder casar, porque na verdade eu tinha 15 anos, mas nos documentos constava 16 anos.

Também me ajudou a poder trabalhar. Em 1976 realizei meu grande sonho de ser professora. Eu estava fazendo o segundo ano do magistério, quando fui chamada pra dar aula. Meu Deus, fui aprender aquele método casinha feliz, que é um método fônico em que você estuda o som das palavras para alfabetização.

Como foi sua trajetória profissional nos últimos anos? Como veio parar aqui em Mato Grosso do Sul?

Em 2008, eu podia aposentar. Até dei entrada no pedido de aposentadoria, mas arquivei o processo quando fui convidada a trabalhar no MEC [Ministério da Educação]. Fui pra Brasília pra passar dois anos, mas acabei ficando quatro. Em 2012, consegui voltar pra Roraima. Queria terminar meu doutorado e ficar com meus pais, mas aí me indicaram para o Pará. Fui para Belém ficar 10 dias, mas fiquei dois anos como pró-reitora de Ensino do IFPA [Instituto Federal do Pará], quando teve a intervenção da reitoria.

Quando terminou a intervenção, arrumei minha mudança pra Boa Vista. Mas fui convocada pra uma reunião urgente no MEC, em Brasília, no dia 2 de maio de 2014. Era para me avisarem sobre minha nomeação como reitora pro tempore do IFMS! Eu pensei em recusar. Como não tenho medo de desafios, aceitei. Isso foi no dia 2, sexta-feira. Na segunda-feira, já estava aqui. Vim só com uma malinha, porque até então achava que ia passar só um dia em Brasília!

No que a senhora pensou quando chegou aqui?

A primeira cena que me chamou a atenção foram duas araras voando na Avenida Afonso Pena. Meu Estado tem muita arara, então me senti em casa. Eu comecei a perceber como aqui parece com Boa Vista, ruas e avenidas largas. Comecei a ver como a cidade é linda. Eu gosto muito de Campo Grande. Aliás, eu gosto muito desse Estado.

A senhora visitou várias cidades do interior...

Sim, por conta dos campi. Eu tinha que conhecer, porque não consigo entender quem trabalha sem conhecer seu objeto de trabalho. Então visitei todos os campi. Com isso fui conhecendo as estradas, vendo o quanto esse Estado é produtivo e tem potencial.

Poderia fazer um balanço do que a senhora encontrou e do que está deixando no IFMS?

Fizemos mudanças na Pró-Reitoria de Extensão, não que houvesse algo de errado, mas como ainda não havia o ensino muito forte, porque o Instituto era bem novo, então não tinha atividade de extensão propriamente dita, era mais atividade artística, cultural. Agora já estão começando ações mesmo de extensão. A Pró-Reitoria de Desenvolvimento Institucional não estava implantada, com isso a cultura do planejamento institucional não existia. E com a implementação da Prodi, começamos a trabalhar essa cultura do planejamento.

Trabalhamos um pouco na questão do Codir [Colégio de Dirigentes], com a preparação dos diretores-gerais dos campi. Acredito que o Codir hoje é uma grande escola de gestão, avançamos muito. Antes, as reuniões eram a cada dois meses, agora é mensal.

Trouxemos três pessoas de fora [pró-reitores de Administração, José Jorge Garcia, de Desenvolvimento Institucional, José Gomes da Silva, e de Extensão, Moacir de Souza], porque eu precisava de uma equipe que trabalhasse no meu ritmo, que é meio frenético. Eu vim pra cá sob dedicação exclusiva e, como amo o que eu faço e faço o que eu amo, tenho vontade de trabalhar, vontade de resolver, pode ser à noite, sábado, domingo...

Outra meta era institucionalizar a EAD, demos o primeiro passo com a criação do Cread [Centro de Referência em Tecnologias Educacionais e Educação a Distância].

Também implantamos os três novos campi, Jardim, Naviraí e Dourados. Em Naviraí conseguimos a sede provisória, iniciamos a obra do campus definitivo, licitamos a obra e está em andamento. Em Jardim, também conseguimos espaço provisório e a obra está em andamento. Em Dourados, conseguimos provisoriamente uma escola estadual, e estamos aguardando a mudança pra sede definitiva. Quanto ao restante das obras, também avançamos, não estou dizendo que solucionamos tudo, mas os problemas de obras já estão todos encaminhados.

A fiscalização de obras também melhorou bastante. Reunimos a equipe e avaliamos qual era o melhor procedimento, o melhor caminho.

Ainda temos algumas fragilidades, não alcançamos a meta de para cada 20 alunos um professor, essa relação aluno-professor é baixa ainda, mas estamos trabalhando pra chegar lá. O IFMS evoluiu muito, claro que não é por estamos aqui, é o curso normal dele, ele vai se desenvolver mesmo. Nós fizemos o melhor de nós, mas tenho certeza de que poderíamos ter feito mais. Estou saindo com uma missão cumprida, que era deixar um reitor escolhido pela comunidade.

O que espera para o futuro da instituição?

O IFMS tem tudo pra se desenvolver, agora só vai crescer. A instituição tem potencial pra ser um dos melhores institutos da rede, dentre os cinco mais novos. Nós temos tudo pra ser referência na pesquisa, por exemplo. Já temos resultados bons, inclusive com participações de projetos em feiras internacionais. O sonho neste momento tem que ser coletivo, tem que ser um único sonho pra que a gente possa se desenvolver.

Pra onde vai a Maria Neusa agora?

A Maria Neusa anda fazendo alguns planos, só que ela tá fazendo um pedido pra que os planos dela coincidam com os planos de Deus. Em 2012, quando fiz os planos de me aposentar, comprei um sitio. Tenho um projeto experimental de criar gado de corte, de plantar... Agora meu plano continua, tentar me aposentar, mas não parar de trabalhar, porque acho que ainda posso contribuir muito.

Também tenho um trabalho lá em Roraima, que é uma biblioteca comunitária dentro de uma área de assentamento, no município de Alto Alegre. Essa biblioteca cresceu e a gente acabou levando pra uma escola de ensino médio, criada dentro do assentamento. Pretendo aprimorar esse trabalho com uma ONG. Penso em fazer alguns trabalhos sociais, mas não quero parar de trabalhar.

Qual foi a maior alegria da sua vida?

Em 4 de outubro de 1975, tive meu primeiro filho. Uma criança, mãe de outra criança... Quando ele nasceu foi o momento de maior alegria da minha vida. É inexplicável ser mãe, um sentimento que só quem vive entende. Eu queria ter meia dúzia de filhos, minha avó teve 19! Só que tive problemas no parto do meu terceiro filho, e não pude mais engravidar.

O que significa ser servidora pública pra você?

Trabalho no serviço público há 38 anos, não diria como servidora pública, eu diria a serviço da educação brasileira, desde a alfabetização, educação especial, educação indígena, educação quilombola, pós-graduação e gestão. Não digo que sou servidora pública, sou um instrumento de Deus nessa terra a serviço da educação pública.

O que a educação significa pra senhora?

Como diz Paulo Freire, educação é transformação. Eu não vejo outro caminho de transformar pra melhorar a sociedade que não seja pela educação. Professor é um agente de transformação.

Aprendi com minha mãe que as pessoas só oferecem aquilo que tem. Cada vez que participei de uma posse de novos servidores, ficava me perguntando o que será que cada um deles iria dar pro nosso povo? Como será que esses agentes iriam contribuir para transformar?

Minha mãe dizia que eu tinha tanta pressa de nascer que, quando a parteira chegou, eu já tinha nascido. Eu digo que cresci apressada pra ser professora, pra cuidar da educação. Quando era adolescente, dizia que ia ser psicóloga. Hoje,dou graças a Deus por não ser psicóloga. Nada contra os psicólogos. É que estou realizada como professora. Educação é tudo pra mim, eu vivo a educação. E sou uma pessoa muito feliz.

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