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ENTREVISTA

Paulo César de Oliveira

Professor de Mecânica do Campus Campo Grande
por Paulo Gomes publicado: 23/12/2016 15h00 última modificação: 26/01/2017 11h45

O professor de Mecânica, Paulo César de Oliveira, é uma figura especial do Campus Campo Grande. Nascido em Ewbanck da Câmara (MG), fez faculdade de Engenharia Mecânica e tem mestrado em Ciências Térmicas.

Magro, tem a fama de comer pouco. A verdade é que com uma rotina intensa de atividades no IFMS e fora dele, falta é tempo para fazer as refeições.

Para fazermos a entrevista com esse mineiro de fala mansa foi preciso aguardar que ele cumprisse um ritual de solidariedade. Todas as sextas-feiras, Paulinho, como é conhecido no campus, dedica o horário de almoço para distribuir sopa na periferia da cidade. E esse é apenas um dos trabalhos que realiza como voluntário

A preocupação com o outro está em muitas atitudes de Paulinho. Sem fazer pregações doutrinárias ou tentar conversões, é um dos servidores que mantém a rotina de encontros semanais para orações no campus.

Nessa entrevista, você terá a oportunidade de conhecer um pouco mais o professor da área de Exatas que tem o trabalho voluntário como um hobby.

Boa leitura!

Professor, essa entrevista estava prevista para uma sexta-feira, mas o senhor pediu para mudar a data por conta de um compromisso externo, que compromisso era esse?

Às sextas-feiras, na hora de almoço, minha entrada no Instituto é às 14h30 por conta de um trabalho voluntário. A gente faz sopa e entrega na periferia da cidade. Aproveito esse momento da saída, pego os filhos na escola e vou em casa carregar o carro para levar até a periferia. É um trabalho que envolve algumas pessoas do meu bairro. Fico com a função de comprar os ingredientes e fazer o transporte. Isso acontece de 15 em 15 dias. Temos equipes que se revezam. Nós começamos com 40 litros de sopa. Mas, as pessoas foram aderindo naturalmente ao trabalho, inclusive colegas aqui do Instituto, e hoje já são 120 litros. Isso vai atender pessoas extremamente carentes.

O senhor também faz um trabalho com estudantes de baixa renda que querem estudar no IFMS, é isso?

Começou como um trabalho voluntário, mas ficou muito corrido para mim. Então, resolvi transformá-lo em um projeto de extensão do IFMS. Nós trabalhamos no Bairro Nova Lima. Temos três professores do Instituto envolvidos e 13 voluntários. Além de eu dar aulas para esses meninos que estão no 9º ano e querem ingressar na instituição, faço a coordenação disso. São aulas de português, matemática e conhecimentos gerais. Começamos em março e vamos até às vésperas do Exame de Seleção [processo seletivo para ingresso nos cursos técnicos integrados do IFMS]. É o projeto Avante Nova Lima. Nós temos também o projeto Avante Santa Emília, que está em fase de análise na reitoria. Como voluntários, temos a participação de professores da Universidade Federal, profissionais da Sanesul, professores das redes municipal e estadual, e pessoas que não têm relação com a docência, mas que dão uma contribuição significativa. São juízes, promotores e advogados que gostam do trabalho voluntário e se identificam com os adolescentes.

E o trabalho vem dando resultado?

Esse trabalho já ocorre há três anos. No primeiro ano, nós tivemos sete aprovações. No segundo ano, foram oito aprovados. Neste ano de 2016, foram nove aprovações no Nova Lima e quatro no Santa Emília. Serão 13 estudantes, portanto, que estarão ingressando no Instituto. Crianças que se não tivessem essa aula de reforço não passariam no Exame de Seleção. E muitos, mesmo que não consigam passar, melhoram o desempenho na escola.

Como funciona o trabalho voluntário de distribuição de cestas básicas para os funcionários terceirizados aqui do campus?

Esse é um trabalho dos professores e dos técnicos administrativos, e é muito legal. Nós fazemos uma compra no atacado e montamos as cestas. Os estudantes ajudam e se envolvem. E, de fato, fica a semente da ajuda ao próximo, além de ser uma forma carinhosa de retribuir o trabalho daqueles que nos assistem aqui o ano inteiro.

O senhor traz as experiências como voluntário para a sala de aula?

Nós temos as ementas para serem cumpridas, mas em um primeiro momento o estudante precisa ser acolhido. Ele precisa perceber que isso aqui é importante pra ele, mesmo que não vá desempenhar a função de técnico no futuro. Vejo que aqui é um local de oportunidades. O Instituto Federal tem estrutura e diversidade, além de professores com formações e experiências distintas. É um local que promove o desenvolvimento intelectual, moral e ético dos estudantes. A gente tem muita liberdade de ação. Claro, temos nossos compromissos, mas temos a liberdade de escolher o que vamos pesquisar, como vai conduzir a aula. Nossas ideias, quando edificantes, são muito estimuladas, e eu tenho extrema satisfação. Pra mim, é um presente estar aqui.

O senhor pode falar como surgiu a ideia de ter um momento de oração aqui no campus e como isso funciona?

Não foi criação minha, mas eu gostei muito e virou uma prática semanal. É importante porque a gente recebe muitos estudantes e nós temos casos de depressão entre jovens de 15, 16, 17 anos. Auxilia e muito.

Uma das missões do Instituto é formar profissionais que além de técnicos, sejam humanistas. Ao estimular o voluntariado em sala de aula, o senhor acha que contribui para que a instituição atinja esse objetivo?

Contribui muito na formação. Quando vamos às empresas pra verificar qual é a opinião dos supervisores desses estudantes, ouvimos algumas coisas que muito nos agradam: são jovens proativos, honestos, educados, se relacionam bem no grupo, aprendem rápido. São indicativos de que sai daqui um estudante mais integral, bem informado.

Como é o Paulo em família? O senhor é casado, tem filhos, tem um hobby?

Família, na verdade é a âncora, o que dá suporte pra que essas coisas aconteçam. Tenho o privilégio de ter uma companheira que é cúmplice, que me ajuda nos trabalhos voluntários lecionando na periferia. Sou pai de dois filhos, um de 18 anos e outro de 15. Gosto de sair pra jogar futebol com eles, jantar e almoçar fora, ir ao cinema, dar um passeio no shopping. São coisas que vão adubando as relações e que são importantes. O meu lazer é família. Gosto de ler e de viajar também. O hobby? O trabalho voluntário tem um viés que é bem interessante. Ele traz uma satisfação tão grande que funciona como um hobby. Ele te exige, mas te completa.

Como senhor veio parar no Instituto Federal?

Fui funcionário do Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] durante nove anos e meio, prestava serviços para a Petrobras fazendo medição de combustíveis. Viajei o país inteiro e conheci seis refinarias por conta disso. Mas, quando fiquei sabendo da vinda do Instituto para Mato Grosso do Sul foi um despertar. Tenho formação técnica em eletromecânica e sei da importância de passar por uma formação dessa natureza. Então, fiz o concurso. Na época, eu lecionava nas engenharias da UCDB [Universidade Católica Dom Bosco].

O que o senhor imagina para o futuro do IFMS?

Vejo que é só uma questão de evoluirmos com relação a nossa estrutura física, de laboratórios. No futuro, nós teremos estudantes mais engajados, percebendo sua vocação. A gente vai poder ter um laboratório onde um estudante do primeiro semestre já conheça os equipamentos, as ferramentas, as rotinas. Nesse aspecto, nós temos muito a crescer.

Qual a sua mensagem de final de ano para nossos servidores?

Que nós façamos aquilo que podemos fazer, contando com nossas virtudes e nossas possibilidades. Que possamos fazer o melhor que pudermos para que, no decorrer do tempo, tenhamos as nossas consciências tranquilas. E que seja um ano de prosperidade, de mais harmonia e que consigamos contribuir, dentro desse contexto, para que sejam restaurados os valores nesse país.